Não é “só mandar pra adoção”.

Essa frase, repetida por quem defende que vítimas de estupro sejam obrigadas a levar a gravidez adiante, transforma a gestação em um detalhe burocrático: como se bastasse esperar nove meses, passar por todas as mudanças físicas e emocionais, enfrentar os riscos de uma gravidez e um parto e, depois, entregar a criança. Como se a violência terminasse no momento em que o estuprador para de violentar.

Não termina.

Obrigar uma vítima a continuar uma gravidez decorrente de um estupro significa prolongar no corpo e na vida dela as consequências de uma violência que ela não escolheu. E quando a única alternativa apresentada é “gesta e entrega para adoção”, o que está sendo defendido não é a liberdade de escolha: é a obrigação de gestar, custe o que custar.

É especialmente grave quando esse discurso parte de um deputado federal. Enquanto a violência sexual segue sendo uma realidade recorrente no país, Nikolas Ferreira escolhe usar sua posição para questionar a autonomia das vítimas e debochar de mulheres que enfrentam uma gravidez decorrente de estupro.