Pela legalização para garantir um aborto humanizado!

#acessibilidade: Ilustração com 10 quadrinhos em tons de rosa. Título: É melhor quando é legalizado.

Alyne, mulher negra, de cabelos crespos presos para o alto, de pé diante de um cenário urbano. Ela segura um diário e pensa: De novo nessa situação… Está escrevendo sua lembrança onde aparece mais jovem, com cabelos trançados, numa oficina com 5 pessoas, sentadas em roda, na Associação de Moradores. Eu tinha 17 anos e me preparava para o vestibular de Direito. Sempre usei camisinha, mas um dia estourou e Vicente não avisou na hora. Ele era legal, mas muito criança. Não iria dar certo... não abrimos o jogo quando fomos à Oficina de Sexualidade. Minha mãe era empregada doméstica e dormia no emprego 4 dias na semana. Pude conversar com Vicente com calma pois naquela noite ela não estava. Não queria que ela soubesse, não queria magoá-la. Vicente diz: Se é assim que você quer… Ela afirma: Sim! Vamos amanhã cedo falar com minha tia lá no trabalho dela. Na recepção do consultório: A irmã mais nova do meu pai sempre foi como uma amiga para mim. Ela ficou um pouco constrangida, mas mesmo assim me ajudou. Séria, a tia diz: Crianças, que bobeada! Mas se é isto que querem, sei onde pode ser feito com cuidado e segurança. Ela e a tia na sala de procedimento. Fomos bem atendidas. Estava de 8 semanas e o método escolhido foi o de aspiração intrauterina. Vicente me acompanhou até em casa. Assistimos a um filme juntos. Pouco depois nosso namoro terminou. Voltando para a cena do primeiro quadro, Alyne segura o diário e olha para a cidade. Parece um sonho estar aqui... Depois de me formar e trabalhar como estagiária na minha cidade, foi incrível conseguir uma bolsa para esse mestrado em Lisboa... Só não contava com mais essa falha do anticoncepcional. Eu confiei na injeção, mas é isso! Todo método tem falhas. Cá estou eu, com 35 anos, tendo passado por mais uma experiência de aborto. Por sorte aqui o aborto é legal. Fiz com tranquilidade, sem medo e sem segredos. Não me arrependo e desejo que um dia no Brasil possa ser assim.

Desenho: @bealake Realização: NPNM, CEPIA, Coletivo Helen Keller, Catarinas, Grupo Curumim